DENSHATTACK: A REVOLUÇÃO DOS TRILHOS

Denshattack! não é apenas mais um lançamento independente tentando capturar a nostalgia dos anos 1990 e 2000; é um manifesto de design. Desenvolvido pelo estúdio espanhol Undercoders e publicado pela Fireshine Games, o título chegou com a promessa audaciosa de mesclar a física insana dos jogos de skate acrobático, a velocidade frenética dos títulos de corrida de nave e a atitude rebelde da cultura urbana pop.

À primeira vista, a premissa soa como uma piada interna de desenvolvedores: “E se o Tony Hawk fosse um trem de alta velocidade?”. No entanto, ao colocar as mãos no controle, essa ideia absurda desdobra-se em uma das mecânicas mais polidas, viciantes e bem-executadas da indústria recente. Esta análise minuciosa explora cada engrenagem, composição musical e curva de trilho que torna esta obra um marco instantâneo do estilo arcade moderno.

Para sustentar um loop de gameplay tão atípico, o universo de Denshattack! precisava de uma construção de mundo (worldbuilding) igualmente excêntrica, mas com coerência interna. O jogo se passa em um futuro não muito distante onde o ecossistema do Japão foi devastado pelas mudanças climáticas. A população remanescente e abastada vive sob a tutela da Miraido, uma megacorporação tirânica que controla as cidades-domo e retém o monopólio do sistema de trens pneumáticos de altíssima velocidade (VACTRAIN).

Fora dos domos, a sociedade marginalizada depende de uma malha ferroviária sucateada para sobreviver, transportar suprimentos e manter pequenas comunidades vivas. É nesse cenário que surge a protagonista Emi, uma entregadora de ramen que utiliza seu vagão para realizar entregas expressas em territórios hostis.

A narrativa engrena quando Emi conhece Fernando, um aspirante a fotógrafo e criador de fanzines. Juntos, eles se inserem na subcultura do Denshattack — um esporte clandestino no qual pilotos modificam seus vagões com propulsores, eixos flexíveis e sistemas de salto para competir em circuitos letais, realizando manobras acrobáticas nos trilhos para ganhar prestígio e territorialidade.

A trama avança no estilo de um anime shonen clássico:

Progressão por Capítulos: A campanha se divide ao longo de 8 capítulos estruturados como episódios de TV, com apresentações de personagens no formato visual novel e cutscenes com estética estática estilizada.

Os Clãs Rivals: Emi precisa desafiar e conquistar o respeito de diferentes gangues locais — como o tradicional e perigoso clã Yakuza Yoneda — para unificar os pilotos contra o domínio da Miraido.

O Conflito Central: A jornada evolui de simples rachas de rua para uma revolução contra a IA suprema da corporação, culminando em confrontos grandiosos que testam não apenas a habilidade do jogador, mas sua capacidade de ler a pista sob extrema pressão.

A jogabilidade de Denshattack! baseia-se em um tripé de inspirações claras: o ritmo acelerado de Sonic Generation, a movimentação estilizada de Jet Set Radio e o sistema de encadeamento de pontos de Tony Hawk’s Pro Skater.

Diferente de um jogo de skate convencional onde o personagem tem mobilidade total em 360 graus, Denshattack! prende o jogador a linhas de trilhos, canos e estruturas metálicas. No entanto, o trilho não é uma limitação; é o estilingue.

Troca de Trilhos e Dash: Com toques rápidos nos analógicos ou botões laterais, o jogador altera instantaneamente de trilho, desviando de obstáculos, barricadas e trens inimigos.

Grind e Equilíbrio: Ao deslizar sobre bordas ou cabos energizados, entra em ação uma barra de equilíbrio dinâmico. O jogador precisa ajustar a inclinação do vagão para não perder velocidade ou despencar.

O Sistema de Saltos e Manobras: Ao pressionar o botão de pulo na crista de uma rampa ou ao sair de um trilho, o trem ganha os ares. No ar, os analógicos comandam rotações, giros e manobras complexas (como kickflips mecânicos, rotações duplas e invertidas).

Manual e Manutenção de Combo: O maior mérito do jogo está no sistema de extensão de combos. Ao pousar de volta nos trilhos, pressionar para cima ou para baixo ativa um alinhamento sobre duas rodas (o equivalente ao Manual do skate), permitindo que o multiplicador de pontos continue ativo até a próxima manobra. Para descidas rápidas, o comando de Fast Fall garante aterrissagens precisas em plataformas inferiores.

       [ Salto / Rampa ]
              │
              ▼
   [ Manobras no Ar / Giros ]
              │
              ▼
 [ Aterrissagem com Manual / Grind ] ──► [ Multiplicador de Pontos xN ]
              │
              ▼
    [ Troca Rápida de Trilho ]

O jogo evita a monotonia alternando constantemente os objetivos ao longo da campanha principal:

Score Attack: Zonas abertas ou fechadas onde o objetivo é alcançar uma pontuação pré-determinada em um limite de tempo estipulado, encadeando o maior número de manobras sem errar aterrissagens.

Corridas Contra Rivais: Modos de pura velocidade com até dezenas de vagões simultâneos na tela. Aqui, o foco muda para a escolha da melhor linha de trajetória, uso de boosts e empurrões para tirar os oponentes dos trilhos.

Fases de Exploração / Sandbox: Cenários mais amplos recheados de colecionáveis (latas de tinta e engrenagens) e caminhos alternativos que exigem leitura rápida do mapa.

Batalhas de Chefões: Confrontos épicos contra superestruturas da Miraido ou máquinas de combate. Nestes estágios, as manobras acrobáticas servem como mecânica de ataque (ex.: rebater projéteis inimigos utilizando giros no ar no momento exato do impacto).

A arquitetura das fases em Denshattack! reflete um trabalho meticuloso de engenharia de level design. As pistas não são meros corredores lineares; são teias complexas de rotas sobrepostas.

Cada fase possui, no mínimo, três camadas de altitude:

Rota Inferior (Segura): Pistas mais largas, com poucos obstáculos, porém sem oportunidades de pontuação alta e com tempos de conclusão mais lentos.

Rota Intermediária (Padrão): Onde ocorrem a maioria das interações, combinando trocas de trilho e pequenos saltos.

Rota Superior (Técnica): Exige saltos de alta precisão, grinds em superfícies estreitas e execução contínua de manobras. É onde se encontram os melhores atalhos, multiplicadores de pontuação e colecionáveis raros.

Após concluir qualquer nível, o jogador recebe uma classificação baseada no seu tempo e pontuação final. No entanto, o verdadeiro fator de rejouabilidade reside nos Dares — um conjunto de cinco tarefas específicas e opcionais por fase (como “Faça um combo de 50.000 pontos”, “Encontre a rota secreta do viaduto” ou “Conclua a fase sem usar o freio”).

Completar esses desafios libera páginas para o Fanzine do Fernando, um menu interativo rico em lore, rascunhos de arte conceitual e entrevistas fictícias com os personagens do universo do jogo, oferecendo um incentivo real para os colecionistas.

O progresso da campanha recompensa o jogador com moedas do jogo — obtidas através da coleta de itens no mapa e do desempenho nas pistas —, que podem ser gastas na Garagem.

Componente Função Gameplay Impacto Estratégico
Modelos de Trem Altera os atributos base (Velocidade Máx, Aceleração, Pulo e Estabilidade) Escolher o trem certo para o tipo de missão (ex.: alta velocidade para corridas, alto pulo para Score Attack).
Passivas Especiais Adiciona vantagens (ex.: pontuação dobrada em tubos, rotação mais rápida no ar) Traz desvantagens compensatórias (ex.: menor margem de erro na aterrissagem).
Vagões Adicionais Modifica o tamanho do comboio e o peso da condução Vagões mais longos aumentam o raio de atrito, mas dificultam curvas fechadas.
Pinturas e Decalques Customização puramente cosmética do visual do vagão Permite criar um estilo visual único com cores vibrantes e arte urbana.

Se a jogabilidade é o motor de Denshattack!, sua direção artística é a lataria reluzente que atrai todos os olhares.

O estúdio optou por uma renderização em cell-shading de altíssima definição rodando na Unreal Engine 5. Essa escolha garante uma estética de desenho animado/anime moderno que não envelhece facilmente.

A paleta de cores fuge do tom cinzento e desolado do pós-apocalipse tradicional, apostando em tons saturações neon, azuis elétricos, magentas e amarelos vibrantes. A iluminação dos cenários, cheia de painéis holográficos e névoa industrial, cria um contraste dinâmico enquanto o trem corta os cenários a mais de 300 km/h.

A Seleção Musical: Uma “Seleção de Ouro” da Música de Games

A trilha sonora de Denshattack! merece um capítulo à parte. Em uma jogada histórica, os desenvolvedores reuniram um elenco estelar de compositores lendários da indústria japonesa e ocidental:

  • Tee Lopes (Sonic Mania)
  • Shoji Meguro (Série Persona)
  • Ryo Nagamatsu (Splatoon)
  • Takenobu Mitsuyoshi (Daytona USA)
  • Richard Jacques (Sonic R)
  • Kohta Takahashi (Klonoa)
  • 2 Mello (Bomb Rush Cyberfunk)

A música não funciona apenas como pano de fundo; ela dita o ritmo da ação. As faixas variam entre o synthwave, funk eletrônico, drum and bass e J-Rock, sincronizando-se perfeitamente com os efeitos sonoros de motores acelerando, faíscas nos trilhos e o som característico de pontuações subindo na tela.

PONTOS FORTES VS. PONTOS DE MELHORIA

Nenhum jogo está isento de falhas, e a proposta ousada de Denshattack! traz alguns tropeços pontuais que valem a menção em um exame aprofundado.

O que torna o jogo brilhante (Prós):

  • Identidade Única: Não existe nada idêntico no mercado atual. A mistura de trem + manobras de skate funciona com perfeição.
  • Resposta dos Controles: A precisão dos comandos garante que toda falha seja responsabilidade do jogador, e não de uma física “quebrada”.
  • Trilha Sonora Histórica: Uma das melhores compilações áudio-musicais da década nos videogames.
  • Valor de Rejouabilidade: A busca por notas mais altas e a conclusão dos desafios mantêm o jogo divertido por dezenas de horas.
  • Acessibilidade vs. Teto de Habilidade: Fácil de jogar para iniciantes, extremamente profundo e complexo para jogadores experientes (speedrunners e score-chasers).

Onde o jogo pode tropeçar (Contras):

  • Poluição Visual e Poluição de Câmera: Em momentos com muitos inimigos, explosões e trocas rápidas de perspectiva, a câmera ocasionalmente perde o ângulo ideal, dificultando a leitura dos obstáculos à frente.
  • Curva de Apresentação Inicial: As primeiras fases utilizam cenários ligeiramente repetitivos antes de liberar toda a variedade de ambientes e mecânicas mais avançadas.
  • Hitboxes Pontualmente Estranhas: Em cenários altamente poluídos, a detecção de colisão com pequenos detritos laterais pode resultar em interrupções indesejadas de combos longos.

VEREDITO E IMPACTO NO MERCADO

Denshattack! chega como uma lufada de ar fresco em uma indústria de videogames frequentemente saturada por sequências genéricas, jogos como serviço hiper-monetizados e títulos focados em realismo excessivo em detrimento da diversão pura.

O trabalho do estúdio Undercoders prova que ainda há um espaço gigantesco para o design de jogos focado no conceito “arcade raiz”: fácil de assimilar, desafiador de dominar, visualmente extravagante e, acima de tudo, extremamente divertido. Ao resgatar o espírito dos clássicos da SEGA dos anos 90 e fundi-lo com sistemas modernos de física e progressão, o jogo se consolida não apenas como um dos melhores títulos independentes de seu ano de lançamento, mas como um clássico cult instantâneo.

Se você é fã de jogos de ritmo, ação acrobática, velocidade ou simplesmente aprecia obras feitas com paixão e personalidade marcante, este título é uma parada obrigatória.

  • Título: Denshattack!
  • Desenvolvedora: Undercoders
  • Publicadora: Fireshine Games
  • Plataformas: PC (Steam), PlayStation 5, Xbox Series X/S, Nintendo Switch 2
  • Gênero: Plataforma / Ação Arcade / Esporte
  • Nota Final: 9.3 / 10