Análise: Granblue Fantasy: Relink – O Ciclo do “Endless Ragnarok”

Poucos jogos na história recente da indústria passaram por um ciclo de desenvolvimento tão conturbado e, ainda assim, conseguiram entregar um produto final tão refinado quanto Granblue Fantasy: Relink. Anunciado inicialmente em 2016 com a colaboração da aclamada PlatinumGames, o título eventualmente retornou para as mãos da própria Cygames, gerando dúvidas se o ambicioso projeto de transpor o gigantesco sucesso do jogo gacha de navegadores/mobile para um RPG de Ação AAA em 3D seria bem-sucedido. O resultado não é apenas um triunfo técnico e de design, mas uma carta de amor aos fãs da franquia e um excelente ponto de entrada para novatos. O subtítulo temático de um “Endless Ragnarok” (Ragnarok Infinito) não poderia ser mais apropriado para descrever a essência da experiência: uma escalada de poder contínua contra bestas apocalípticas em um mundo onde os céus estão sempre à beira do colapso.

A narrativa de Relink nos leva ao Zegagrande Skydom, uma região inexplorada e flutuante do vasto mundo de Granblue. Assumindo o papel do Capitão (Gran ou Djeeta), acompanhado pela misteriosa Lyria, o pequeno dragão Vyrn e a clássica tripulação da Grandcypher (Katalina, Rackam, Io, Eugen, Rosetta), o jogador é rapidamente jogado em uma trama que envolve fanáticos religiosos e o despertar das Primal Beasts — entidades divinas de poder destrutivo imensurável. Embora a campanha principal siga uma estrutura de anime shounen relativamente previsível e possa ser concluída em cerca de 15 a 20 horas, ela serve perfeitamente como um prólogo bombástico. A história dita o ritmo, introduz as ameaças cósmicas e estabelece o tom de urgência. O espetáculo visual das lutas contra os chefes durante a campanha é formidável, evocando a escala de jogos como Final Fantasy XVI, mas com um charme de fantasia em cel-shading que faz cada frame parecer uma ilustração de Hideo Minaba ganhando vida.

A Dança do Combate e a Sinergia da Tripulação

Onde Granblue Fantasy: Relink realmente consolida sua excelência é em seu sistema de combate. O DNA da PlatinumGames ainda pode ser sentido na fluidez e na responsividade dos controles, mas a Cygames expandiu a fórmula para criar algo que se assemelha a uma mistura perfeita entre Monster Hunter, Tales of e Final Fantasy XIV. O jogo brilha ao oferecer um elenco de mais de 15 personagens jogáveis, e o maior trunfo mecânico da obra é que nenhum deles joga da mesma forma. Cada membro da tripulação possui um arquétipo e uma curva de aprendizado únicos.

Jogar com Narmaya exige um domínio rítmico de troca de posturas (stances) para maximizar o dano; Charlotta foca em ataques rápidos incessantes e parries perfeitos; Rackam transforma o jogo em um shooter em terceira pessoa com mecânicas de superaquecimento; e personagens como Cagliostro ou Rosetta trazem armadilhas, buffs e controle de área. Essa diversidade é crucial, pois o combate recompensa a sinergia. O sistema de Link Attacks (ataques conjuntos executados após preencher uma barra de atordoamento no inimigo) e os Chain Bursts (ataques especiais combinados quando toda a equipe usa suas Skybound Arts em sequência) criam um fluxo de batalha frenético, mas incrivelmente tático.

Outro ponto de extremo destaque é a Inteligência Artificial dos companheiros controlados pelo jogo. Em um gênero onde a IA costuma ser um estorvo, os bots de Relink são impressionantemente competentes. Eles desviam de ataques mortais, curam o jogador no tempo certo e otimizam seus combos, tornando a experiência solo tão viável e prazerosa quanto o modo cooperativo online.

O Verdadeiro Desafio e a Arte do Apocalipse

Se a campanha principal é o prólogo, o “Endless Ragnarok” começa de fato no endgame. Assim que os créditos rolam, Relink abandona a estrutura de narrativa linear e adota um formato de missões baseadas em hubs, claramente inspirado em Monster Hunter. É aqui que a dificuldade aumenta vertiginosamente, dividindo-se em ranques (Hard, Extreme, Maniac e Proud). As batalhas no ranque Proud são verdadeiros testes de resistência e habilidade, exigindo que o jogador entenda profundamente as mecânicas de i-frames (janelas de invencibilidade ao esquivar), bloqueios precisos e posicionamento.

Os chefes do endgame introduzem mecânicas complexas, como grandes áreas de efeito (AoE), ataques que cobrem a arena inteira e padrões que exigem comunicação e coordenação (ou uma build impecável no modo solo). O espetáculo audiovisual acompanha essa escalada de tensão. A trilha sonora, com contribuições dos lendários Nobuo Uematsu e Tsutomu Narita, transita entre orquestrações épicas, guitarras de heavy metal e coros góticos, elevando cada confronto contra os dragões e as Primal Beasts a um status mitológico. O motor gráfico do jogo lida com o caos de partículas, magias explodindo e quatro personagens atacando simultaneamente com uma taxa de quadros notavelmente estável, o que é vital para um jogo que exige reações em frações de segundo. A sensação de abater um chefe colossal como Bahamut Versa após dezenas de tentativas captura exatamente a catarse de impedir o fim do mundo repetidas vezes.

O Ciclo de Progressão, Falhas e Veredito

Para sustentar esse ragnarok infinito de missões desafiadoras, o jogo conta com um sistema de progressão incrivelmente denso e, por vezes, punitivo. A evolução não se dá apenas por ganho de níveis, mas através da Mastery Tree (uma gigantesca árvore de talentos), da forja e aprimoramento de armas, e do complexo sistema de Sigils (equipamentos que funcionam como joias de atributos). Construir o personagem perfeito exige equilibrar Damage Cap (limite de dano, uma mecânica essencial do jogo), taxa de crítico, saúde e utilidade. No pico do endgame, o foco se volta para o grind das cobiçadas Terminus Weapons, armas supremas que têm uma taxa de drop minúscula do chefe mais difícil do jogo.

É neste ponto que Relink pode alienar alguns jogadores. O grind é formidável e pode se tornar repetitivo, dado que o escopo de monstros e cenários começa a ser reciclado nas dificuldades mais altas. O “ciclo infinito” de refazer a mesma missão dez ou vinte vezes em busca de um material raro com uma taxa de drop de 3% é uma herança direta das raízes de jogos móveis e looters orientais, o que nem sempre agrada o público ocidental acostumado a recompensas mais imediatas. Além disso, a câmera pode ser um adversário ocasional quando se trava a mira em inimigos colossais que se movem de forma errática pelo cenário.

Granblue Fantasy: Relink é uma obra monumental dentro do subgênero de Action RPGs. Ele consegue a proeza de fundir uma apresentação digna de animes de alto orçamento com mecânicas de combate profundas, responsivas e altamente viciantes. Embora sua narrativa central seja relativamente contida, seu endgame robusto e infinitamente rejogável oferece centenas de horas de conteúdo para aqueles dispostos a enfrentar seu ciclo punitivo de evolução e maestria. O “Endless Ragnarok” dos céus de Zegagrande não é para os fracos de coração, mas para aqueles que abraçam a jornada, a recompensa é um dos sistemas de combate mais satisfatórios da atual geração.