MDA Entrevista: Helena Violante (Coco), Lucas Gama (Qifrey) e Guilherme Marques (Diretor de Dublagem) de Witch Hat Atelier

Hoje (30 de julho), teremos o tão aguardado podcast do grande sucesso, Witch Hat Atelier. E para comemorar esta data, vamos trazer também uma entrevista que nosso podcaster Rafael Valente fez em 27 de maio, a convite da Crunchyroll, com os dubladores Helena Violante (Coco) e Lucas Gama (Qifrey), além de Guilherme Marques, diretor de dublagem do anime.

 

Rafael Valente – MDA

Por favor, apresentem-se, falem dos seus principais trabalhos com animes…

Lucas Gama

Olá, pessoal. Eu sou o Lucas Gama, ator, dublador. Eu acho que já fiz muita gente de animes que o pessoal conhece. Fiz o Mitsuki em Boruto. Eu faço o Chigiri em Blue Loki. Fiz o Mafuyu em Given. Meu Deus do céu, tem um monte de gente. Vou até lembrar de cabeça. Se vocês precisarem, eu já fiz muita gente legal.

Rafael Valente – MDA

Ele tá sendo humilde, porque eu fui pesquisar sobre ele. E a Wikipédia de dublador dele é uma lista extensa de coisas.

Lucas Gama

Amigo, eu não lembro. As pessoas me perguntam, o que você dubla? Eu falo, meu Deus do céu, gente, socorro, puxa do HD. Eu lembro mais do que eu tô fazendo no mês. Mas é muita coisa legal. 

Helena Violante

Oi, tudo bem? Eu sou a Helena Violante. Sou dubladora, sou atriz. E eu dublei a Kikoyo. Uma personagem muito fofinha no anime Reencarnei numa máquina de vendas. Eu dublei a Mari em Magic Maker. A irmã do Xion. Eu faço a Dreamy em Cry Babies. Um desenho infantil muito fofinho. De umas bebezinhas muito fofas. Já fiz um programa do Hot Wheels no YouTube. E faço várias vozes adicionais naqueles programas de reforma super legais.

Guilherme Marques

E aí, gente? Eu sou o Guilherme Marques. Ator, dublador, diretor de dublagem aí de Witch Hat Atelier também. Vocês já me ouviram por aí em Attack on Titan com o Aaron Smith. Spy Family com o Lloyd Forger. Putopiai com o Shotaro Hidari. Rider Build com o Gentoku. E tantas outras coisas aí. São alguns anos fazendo coisas. Muitas coisas. Só pra gente ficar mais na cultura japonesa.

Rafael Valente – MDA

Como tem sido interpretar Coco? E como você tem recebido a repercussão da personagem, do trabalho, de Witch Hat?

Helena Violante

Ai, eu tenho um carinho enorme por dublar a Coco. Eu acho sempre, cada vez que eu vou dublar ela, é uma experiência nova. Um aprendizado diferente. Eu acho que a galera tá gostando muito da dublagem em geral de Witch Hat Atelier. Muita gente tá falando que tá ótima. Eu concordo também. Mas dublar a Coco tá sendo uma experiência incrível. Porque ela é a minha primeira protagonista. E eu tô muito, muito, muito feliz. Em ter a oportunidade de dublar essa personagem tão querida pelo público.

Rafael Valente – MDA

Eu não sabia que eu ia conversar com vocês. Quando eu comecei a ver o Witch Hat. E coincidentemente, eu peguei o Witch Hat pra assistir dublado. E normalmente, quando eu começo a assistir um anime. Eu não paro de assistir do jeito que eu comecei. Então, se eu começo na linguagem original, que é o japonês. Eu mantenho o japonês até o final. E se eu começo dublado, eu vou dublado até o final. Porque a gente grava muita coisa. Então, a gente acaba tendo que explorar vários tipos de linguagem. Cara, eu posso falar. Eu tô feliz. Eu tenho gostado bastante.

O Qifrey é um personagem que tem uma dualidade muito grande até o momento. Em momentos, ele é muito zeloso, compreensivo. Em outros momentos, ele é assustadoramente obcecado. Isso acaba tornando o personagem mais difícil de interpretar?

Lucas Gama

Eu não vou falar que é difícil. Mas eu vou falar que é muito divertido. Porque quando você tá gravando, a gente não tem a noção pra onde o personagem vai levar a gente, né? Então, quando ele chega nesses momentos de rompantes de surto dele… E aí eu fico assim… Cara, é muito divertido dublar esses momentos. Porque tem a quebra, né? A gente tá ali gravando. Aquele fofinho com todo mundo, com as meninas. Do nada, aquele corte seco. E aí ele sendo um vilãozinho, do nada, apagando a memória dos outros. Eu falo assim… Gente, o que tá acontecendo? Então, eu acho que… É uma aventura, cara. É um mistério, assim. Porque a gente nunca sabe pra onde ele vai levar, né? Então, acho que essa é a parte mais divertida de dublar o Qifrey.

Rafael Valente – MDA

Quais as dificuldades de atuar em anime?

Helena Violante

Olha, eu acho que o público, em geral, que gosta de anime, é um pessoal que gosta muito da dublagem. Às vezes é um pessoal muito exigente, com expectativa muito alta. Então, eu sempre fico pensando… Será que eles vão gostar? Será que agrada a eles? Porque, na verdade, é o pessoal que mais assiste, né? É pra eles que a gente tá fazendo esse trabalho. Mas, assim, em geral, eu não vejo tanta dificuldade em dublar a Coco. Eu acho que o que mais me pegou foi dublar ela chorando. Porque eu nunca fui uma personagem que chorasse tanto. Isso me pegou um pouco.

Lucas Gama

Acho que dificuldade, Eu acho que todo trabalho tem um pouco, né? Eu acho que cada idioma tem seus desafios. E o japonês é aquela coisa. A gente nunca sabe exatamente onde são as pausas. Porque, diferente do inglês e do espanhol, a gente consegue entender boa parte. Então, no japonês, a gente fica assim… A gente fica muito vendido às pausas e ao texto. Então, graças a Deus, nós temos ali o maravilhoso Guilherme. Que, quando a gente fala assim… Socorro, Gui. O que está acontecendo? Pra onde eu vou, ele pega na nossa mão e fala assim… Calma, eu tô aqui. Vai dar tudo certo. Calma. Mas, no geral, cada trabalho é um trabalho, né? Cada personagem, cada produção tem suas dificuldades. Eu não vou falar que é fácil, porque nunca é. Dublar anime é muito difícil, por conta da língua. Mas, assim, a gente vai levando. Vai passar dublado, gente. Independente de qualquer coisa, sabe? Esse que eu sempre levo pra vida.

Rafael Valente – MDA

Guilherme, existe algum direcionamento específico quando a gente tá falando de dublagem em anime? Os japoneses pedem algo? Alguma coisa bem específica que você precisa pontuar na hora de dividir?

Guilherme Marques

Cara, eu nunca recebi uma orientação específica vindo ali por conta do japonês, etc. O que a gente sempre busca, e isso independe do cliente, independente do produto, independe do que seja, é trazer para o português, trazer para o público brasileiro a emoção que tá sendo passada naquela obra. Não importa em que idioma, que linguagem seja. Então, o que tem de específico ali, acho que mais no anime mesmo, é a interpretação do anime. Então, a interpretação do japonês dentro ali do anime, ela tem uma intensidade, ela tem um jeito de ser feita. Que é diferente da interpretação do tokusatsu, que é diferente da interpretação por um Akira Kurosawa, que não é a mesma coisa. Dentro do japonês também são linguagens diferentes, como o português têm linguagens diferentes. Então, é a gente trazer aquilo, porque a gente sabe justamente que o público é muito apaixonado por aquilo, conhece muito, e ele quer receber aquela mesma carga, ele quer receber aquela mesma emoção. Então, não é uma cobrança do cliente, é um entendimento nosso, um entendimento da categoria, um entendimento da profissão, de que a gente tá lá para entregar para o público, a mesma emoção, o mesmo sentimento. E é muito gostoso quando a gente consegue isso, porque tem horas que a gente diz cara, acho que é isso. Aí alguém assiste e fala ah, pô, mas tá ruim isso aqui. Mas é muito gostoso quando a gente recebe justamente o retorno do público de cara, eu me emocionei tanto quanto eu assisti o japonês. Witch Hatch tá saindo ao mesmo tempo, que é benéfico para o nosso trabalho, como você mesmo exemplificou aí. Então, quando a obra sai dublada simultaneamente em lançamento nacional, uma grande parcela começa a assistir dublado, e óbvio, se a dublagem pega, se a dublagem tá boa, o cara não vai ver se o japonês tá melhor ou não, e ele continua assistindo. Se há uma defasagem, se isso sai depois, aí começa a ter os comparativos, ou a pessoa nem volta para assistir o dublado. Ah, já assisti no original, tá ótimo, um dia, quem sabe, eu resolva pôr aí uns trechinhos, ou pegar uns trechos, uns cortes no Instagram. Então, a orientação sempre, e a orientação do nosso trabalho é pra gente se entregar mesmo, pra gente fazer a galera se emocionar em casa, fazer a Helena chorar em casa também, não só no estúdio. Então é isso, e a gente sabe o quanto que o japonês ele coloca, ele coloca de energia, ele coloca de força, ele coloca de grito, ele coloca ali de emotividade, até em personagens tão pequenos quanto a Coco. Então é a gente ir atrás disso, é a gente buscar exatamente esse resultado.

Rafael Valente – MDA

Como foi o processo partindo do descobrimento do papel, como foram os testes, o que vocês sentiram quando vocês foram escolhidos, como vocês descobriram? Conta um pouquinho pra gente dessa experiência.

Helena Violante

Bom, eu recebi o teste pra fazer a princípio, eu não sabia que anime era, depois eu fui dar uma pesquisada, eu não lembrava que era pra Coco, pra protagonista, eu pensei que era pra Tétia. Eu olhei pra carinha da Tétia e falei tá errado, é assim que eu vou fazer o teste. Mas aí, no fim foi pra Coco, mas eu pensei que eu não ia passar, o que foi algo muito ruim, porque eu acho que todo mundo tem que ter um pouco de otimismo e pensar que tudo vai dar certo. Mas, enfim, eu fiz o teste e aí esqueci ele por um tempinho só pra ver se saiu o resultado. Quando saiu, eu não estava sabendo, eu tinha voltado da escola, eu estava no carro, a minha avó começou a me gravar, eu falei, o que você está gravando? Ela me entregou um bilhete escrito parabéns, você vai dar a voz a Coco. Eu falei, que mentira! Eu não acreditei, mas eu fiquei muito, muito, muito feliz. Assim, foi um sonho realizado meu.

Lucas Gama

Bom, comigo recebi o teste, eu não conhecia infelizmente o anime, mas eu me encantei de primeira quando eu vi as cenas do teste, eu falei, quero passar, vou me dar aqui 110%. E, cara, foi muito legal quando eu recebi a resposta também dos meninos que eu tinha passado no teste, porque eu fiquei encantado com a obra, fiquei encantado com tudo. E eu falei, eu quero participar disso de alguma forma e estar dublando ele, assim, nesse momento, está sendo uma experiência muito gostosa, principalmente com os fãs, que todo mundo vem falar comigo e tudo mais, e também com o saber, né, de todo o repertório do que vem por aí também, que vai ser muita coisa legal. Então é isso, mas é um presente, eu sempre falo que tudo que a gente faz é um presente, né, e esse é mais um presente que eu recebi, tô tendo prazer, assim, de fazer.

Rafael Valente – MDA

Guilherme, quais características vocês buscavam pros papéis em Witch Hat Atelier, e o que te fez bater o martelo para escolher a Helena e o Lucas?

Guilherme Marques

A escolha deles dois foi da Crunchyroll. O que a gente fez foi elencar eles junto com algumas outras vozes pro teste, pra Crunchyroll bater o martelo. É sempre um trabalho muito complicado esse, porque tem as pessoas que a gente sabe o resultado que vai dar, e tem pessoas que a gente pensa assim, cara, eu acho que vale a pena a gente arriscar aqui, a pessoa entrega. É sempre muito complicado esse processo. Então, o Lucas e a Helena estavam entre algumas outras pessoas que foram enviadas a amostra de áudio, currículo e tudo mais, a Crunchyroll bater o martelo na escolha deles dois. Porque, são as características, né, de voz, de interpretação, de condizer a voz com a idade do personagem, com a característica do personagem, com a energia do personagem. Então, às vezes a gente tem uma voz perfeita, mas que não encaixa na energia, então não dá certo, não vende. Então, primeiro é a gente conhecer os atores que a gente tem ali para trabalhar, saber que eles vão entregar aquele resultado que a gente espera, que a obra espera. E eu acho que foi muito isso, da gente ir atrás da voz do Qifrey e que fosse uma voz, ao mesmo tempo, calma, acolhedora, tranquila, jovial, bacana. A gente poder saber que o Lucas consegue brincar na coisa, às vezes, do caricato que o grafismo do desenho pede, da gente explorar isso. E, ao mesmo tempo, saber que o Lucas é capaz de entregar essa dualidade do Qifrey. Então é conhecer, conhecer o trabalho das pessoas, conhecer as pessoas, saber que as pessoas são bacanas de trabalhar. Já trabalho bastante tempo com a Helena também, então sei que ela ia entregar, ia se esforçar ao máximo ia trazer essa leveza da Coco, essa ingenuidade da Coco, essa coisa sonhadora da Coco, mas, ao mesmo tempo a gente instiga ela para trazer justamente o contrário, que talvez não tivesse tão acostumada, mas eu sei que ela entregaria a parte mais dramática, a parte mais pesada, a parte mais densa. Então é isso, tanto os outros personagens todos, as outras meninas, a gente encontrando ali a voz, a idade da voz, o tipo da voz, a característica da voz, com a personalidade que aqueles personagens pedem em cima daquela voz.

Rafael Valente – MDA

Lucas e Helena, ambos já trabalharam em outras obras de mídia que não eram animações. Vocês conseguem citar algumas diferenças entre produções live action e animações? Ou vocês sentem que acaba tendo que mudar na hora de interpretar?

Lucas Gama

São propostas completamente diferentes. E o live action, quando a gente parte para o live action de filmes, séries e tudo mais, é uma coisa muito mais naturalista. E quando a gente vai para o anime, a gente busca um pouco também do exagero quando pede e tudo mais. No Qifrey, eu busco um pouco de misturar os dois. Porque ele é muito tranquilo, muito sereno, fala muito baixinho. Então eu tento seguir por esse caminho. A gente acaba misturando o trabalho todo. Mas são propostas diferentes, mas no final das contas o trabalho é um só.

Helena Violante

Eu também acho que tem uma diferença o live action, séries, filmes, tem outra pegada com mais naturalidade também. O anime, eu acho que dá para você fazer uma voz mais caricata, alguma cena cômica, dá para você se soltar mais. Eu acho que no filme, onde tem atores reais, pessoas reais, eu acho que você tem que dar uma pegada mais com um ar de naturalidade.

Rafael Valente – MDA

Não deve ser fácil, eu imagino.

Lucas Gama

É diferente, como eu falei, são propostas diferentes. Mas a gente vai muito em cima também do que tem na imagem. Então se, por exemplo, no anime, tem momentos que se pede para falar mais sério. Então a gente vai no mais sério, quando vai que nem o Gui falou, pede para ir mais para o mais caricato, a gente pira mais ainda. Quando vai no mais live action, é aquela coisa mais centrada, não tem muito para onde correr, é sempre mais falado. O máximo é que vai rolar um barraco. Vai tirando o barraco, não vai mudar muita coisa. Eu adoro dublar animação. Acho que a animação é mais divertida ainda do que dublar filmes assim. Eu me divirto mais. Mas são propostas diferentes, como eu disse.

Helena Violante

É, uma das coisas que eu mais gosto é dublar animação também.

Lucas Gama

É divertido. Me sinto criança, sabia?

Rafael Valente – MDA

Existe algum direcionamento vindo do Japão, algum tipo de preferência para que o dublador faça x coisa, faça coisa y? Um pouco mais sobre o trabalho entre a direção de dublagem e o Japão?

Guilherme Marques

Não, especificamente não. Assim de orientação. Nada disso. O que a gente tem é o glossário para a gente seguir, as adaptações, os nomes, os termos, as pronúncias. Isso vem sempre uma cartilha em cima de cada projeto para a gente seguir aquilo. Todas as questões comerciais do mundo também. Mas eu acho que a hora que parte justamente para essa questão da interpretação, nunca chegou, pelo menos para mim, essa orientação de que faça mais assim, faça menos assado, ou peça para o dublador fazer de tal jeito. Eu acho que aí tem uma confiança muito grande de que a gente sabe o que a gente está fazendo e sabe o público que consome o nosso produto e a gente entende como fazer isso da forma mais honesta, da forma mais verossímil possível.

Rafael Valente – MDA

E nem na parte, por exemplo, de adaptação de texto, como a gente conhece bastante as adaptações de texto de anime, desenhos e coisas do tipo, elas são muito lembradas pelas piadas que fazem referência ao Brasil e tudo mais. Nem nessa parte eles acabam não se intrometendo, eles deixam vocês livres para fazer um bom trabalho?

Guilherme Marques

Na maior parte das vezes, sim. É claro que a gente tem que tomar cuidado porque cada produto é um produto. Os animes não são todos iguais. A gente tem milhões de gêneros, a gente está vendo aí. É que a gente estava mal acostumado, entre aspas, antes porque a gente tinha muito pouca coisa chegando. Só o que cabia na TV aberta. E só o que vendia. Porque para a TV aberta, para a televisão, você precisa vender produto para poder pagar o comercial, para poder pagar aquele espaço. Então chegava pouca coisa e chegava o que fazia sucesso. Chegava ali o shonen, chegava a coisa mais debochada, chegava a coisa mais ágil. Quando chega o streaming, quando chega um serviço mais voltado para esse público, a gente começa a perceber a gama de produções que tem. São muitas produções, nossa senhora! Se você for pegar a base, o mangá é uma enxurrada toda hora lá no Japão. Uma parte disso vira anime. Uma parte disso vem para o Brasil. Uma parte disso é dublada. E a gente está dublando coisa para caramba hoje, para todos os streamings, para todas as plataformas. Então o mundo inteiro, todas as produtoras, voltaram os olhos para isso. E cada um tem um jeito de fazer. O Witch Hat Atelier não caberia eu colocar gírias e colocar referências ao Brasil. Mas se você pegar uma coisa um pouco mais contemporânea, uma coisa mais urbana, um desenho que seja mais debochado, talvez caiba. Caiba gírias, caiba uma brincadeira, caiba um jeito diferente, um sotaque diferente. Então eu acho que, o que tem, e tem um pouco, isso tem um pouco. Às vezes tem um pouco. Carregou demais na mão aqui, hein? Vão dar a segurada. Muito meme, muita gíria, palavrão onde não precisa. Às vezes tem. Mas é muito pontual. Não é uma cartilha. São coisas mais pontuais. Às vezes o que vem é uma orientação. Esse personagem aqui é um personagem andrógeno. Esse personagem é uma mulher fingindo que é um homem. Ou o contrário. Esse personagem aqui, ele… Como o Iguin, no próprio Witch Hat Atelier, que a gente tem uma voz muito andrógena, uma voz mais característica no Japão, que a gente buscou ir atrás dessas condições aqui, porque característica que é. Então por que escolheram essa voz lá no Japão? Então é mais por aí. Mas é a gente entender com o que a gente está trabalhando. Cada obra vai permitir que você tenha certas liberdades ou nenhuma.

Rafael Valente – MDA

Helena, considerando a sua idade, quais as metas que você gostaria de alcançar em toda a sua carreira de dubladora? E você considera a Coco o seu trabalho mais midiático até então?

Helena Violante

Sim, com certeza. Eu acho que foi o maior trabalho que eu já fiz. (26:16) Mas assim, o meu plano, as minhas metas é continuar dublando personagens grandes, personagens importantes. Meu sonho, inclusive, é dublar um Dorama. É uma das minhas metas. Dublar jogos também, eu tenho muita vontade. Dublar filmes, séries. Então, eu planejo subir muito mais na minha carreira, mas, sim, a Coco foi uma das maiores personagens que eu já dublei.

Rafael Valente – MDA

E engraçado você falar isso porque o pouco tempo que eu já ouvi você trabalhando em Witch hat Atelier, eu acho que isso não vai demorar muito. 

Lucas Gama

Exatamente. Amiga, você vai trabalhar muito ainda, relaxa.

Rafael Valente – MDA

Lucas, agora a gente vai voltar um pouco para o Qifrey, porque ele é um personagem bem curioso. Como você estudou o personagem? Você chegou a estudar o dublador japonês mesmo sem entender pra ver como é que ele transportava emoção e coisa do tipo? Chegou a ler a obra original, o mangá? Conta pra gente um pouquinho desse processo.

Lucas Gama

O primeiro contato que eu tive com ele mesmo foi dentro do estúdio. Então eu já meio que fui absorvendo tudo que pude assistindo enquanto eu dublava. Então, como eu disse, eu não tenho muito pra onde fugir do original. Ele já me entrega muita coisa. Então eu tento ir bem em cima do que ele já me entrega. Eu comecei a ler o mangá. Tô até aqui, tô lendo o mangá. Porque ele é um personagem muito diferente. Então a gente nunca sabe pra onde esse tipo de personagem vai levar. Então eu falo assim, eu quero ler a obra original pra saber, pra entender, até pra poder entregar mais na hora que eu for dublar, de entendimento de personagem. Porque como é um personagem que a gente não sabe o que esperar, se vai pra um lado, se vai pro outro. Eu quero acreditar que ele vai ser o mocinho, tá? Mas se tender pro lado do mal, estarei pronto pra entregar toda a minha “malemalência”. E é isso. Eu acho que é um personagem muito divertido. E também o trabalho original, do dublador original, do ator de voz original, é incrível também. Não tem nem o que falar. Sem ele, não seria o que, Qifrey?

Rafael Valente – MDA

O material chega, como esse Simuldub, ele praticamente sai junto com o Japão, vocês recebem o material com quanto tempo de antecedência pra poder fazer o trabalho?

Guilherme Marques

Depende de cada caso, né? Depende se eles lá já têm esse material todo pronto, e aí às vezes a gente recebe já a temporada inteira, pra já ir assistindo, pra já ir revisando, pra já ir traduzindo, pra já ir escalando, e aí agendando os momentos de gravação. Ou esse produto tá sendo produzido ao mesmo tempo lá, e aí às vezes acontecem os atrasos, acontecem os imprevistos, porque a coisa não dá tempo de ser produzida a tempo ali. Então tudo depende, tudo depende. Pra nossa sorte o It Hatch tá correndo muito bem, sem maiores percalços. Não terminamos de gravar ainda, aqui hoje, na segunda-feira, sai o episódio 10 (A entrevista feita em 27/05), ainda tem mais um pouco aí pra finalizar a temporada. Então, nesse caso específico do Witch Hat Atelier, a coisa tá fluindo muito, muito, muito bem, muito tranquila de tudo, de tudo mesmo.

Rafael Valente – MDA

Helena, qual a cena mais emocionante da Coco até o momento? Que você se emocionou mais.

Helena Violante

Ai, com certeza foi a cena que a mãe foi petrificada, eu acho essa cena muito emocionante e triste ao mesmo tempo, e também quando ela tá fazendo o teste da cordilheira, que ela lembra da mãe dela quando ela tá voando, junto com a lagarta-pincel. Ai, eu acho que foram as cenas que mais me pegou emocionalmente, porque eu não aguentei. É muito fofo, muito linda essa cena.

Rafael Valente – MDA

Guilherme. Qual cena você considera a mais difícil e técnica até o momento da temporada?

Guilherme Marques

Cara, tem algumas, tem alguns momentos, que às vezes pode até não parecer tanto, mas naquele momento ali, eu acho que é a hora do Qifrey mesmo, a hora que ele levanta um pouco mais a voz, que ele é um pouco mais firme ali com o Nornoa, a câmera fecha no olho dele, e aí ele muda o tom, acho que foi a ideia da gente encontrar esse tom junto com o Lucas, pra não ir nem de mais, nem de menos, tá ali no lugar certo, porque até então, o Qifrey, ele vinha numa levada ali toda mais… Me comentaram, mais pai de menina. Então, e aí de repente a gente vê que, cara, ele tem uma camada ali que a gente não conhece ainda. Junto com a Helena também, o tom do choro, do desespero, do grito, que não é tão gritado, da intensidade. A gente sempre ia encontrando onde é que está ali o tom do personagem. Porque às vezes a gente sobe o tom sem necessidade. Então, a gente ir brincando mesmo com a sutileza da coisa. Então, essa cena do primeiro episódio, eu acho que as cenas em que o Qifrey, ele vai se mostrando um pouco mais, ali mostrando esse outro lado mais sombrio dele. Tem todo um caminho do episódio que vai sair segunda-feira, que depois vocês vão assistir, que vocês vão ver, que ele é, que ele carrega também, que ele vai tirando algumas camadas ali, mostrando um pouco mais da vulnerabilidade de alguns personagens. Então, eu acho que o desafio é sempre esse. O desafio é nesse lugar, da gente ir encontrando ali onde é que está o tom do personagem.

Rafael Valente – MDA

Ao longo dos últimos 10 anos, deu pra notar um aumento de dublagens significativo de diversas mídias. Como você Guilherme vê o mercado de dublagem atualmente e qual o prospecto que você vê no futuro, levando em conta a formação de novos dubladores e o aumento de trabalhos que é exponencial.

Guilherme Marques

O mercado da dublagem é muito cíclico. Tem muitos altos e baixos. Você comentou, é de 10 anos. 10 anos, a gente teve ali, aí a gente tinha muita coisa. Ele vai passando por booms de mídias. Então, ele vai passando por alguns booms e alguns baixos. A gente teve um boom tremendo na pandemia, na pandemia mesmo, né? Muita, muita coisa foi dublada porque o pessoal estava consumindo muito. Aí, deu uma estagnada depois. A gente teve alguns outros percalços aí com o surgimento de inteligência artificial, com a retração do mercado, greves lá nos Estados Unidos. Tudo que acontece lá fora, a gente sente aqui diretamente. Principalmente nos Estados Unidos. (6:21) Tudo passa por eles. O filme indiano passa pela distribuidora americana. Então, tudo passa por eles. Se eles estão ruins, a gente sente aqui. E aí, a gente vai vivendo esses altos e baixos. Tem momentos em que tem muito trabalho, tem momentos em que tem muito pouco. Mas em quantidade, sim. Acho que tem aumentado significativamente mais tanto as possibilidades quanto o consumo. Hoje em dia, a gente tem muito mais serviços, canais. (6:54) O YouTube está dublando muita coisa. Muito canal de YouTube está dublando muita coisa. Que não seja por inteligência artificial, que não seja. Então, tem muitos mercados de trabalhos novos que, aos poucos, a gente vai entendendo também. A minha perspectiva para o futuro é sempre uma perspectiva mais otimista. Mas a gente está travando algumas batalhas. Principalmente com a questão de inteligência artificial. Vai usar? Não vai usar? É boa? Não é? Vale a pena? Não vale a pena? Vamos legalizar a coisa? Vamos regularizar a coisa? Então, estamos nesse caminho. De regularizar o uso da inteligência artificial para não prejudicar as pessoas, não prejudicar a sociedade como um todo. Mas eu sou otimista de que a gente vá para um caminho bom e que a gente ainda tenha muito material humano para ser feito e para ser consumido pela galera.

Rafael Valente – MDA

Uma coisa que eu gosto de falar sobre a inteligência artificial é que ela nunca, principalmente com dublagem, com arte no geral, ela nunca vai conseguir chegar perto do ser humano. Nunca. Ela nunca vai conseguir se expressar como um ser humano. Nunca vai conseguir passar uma emoção como um ser humano passa.

Guilherme Marques

É porque a arte é humana, né?

Rafael Valente – MDA

Exatamente.

Guilherme Marques

Não tem como.

Rafael Valente – MDA

E, para finalizar, essa é uma pergunta para os três. Tem alguma curiosidade de bastidor que vocês poderiam compartilhar com o público nessa gravação toda de Witch Hat Atelier? Nessa temporada que vocês têm feito?

Lucas Gama

Eu sou careta. Eu chego lá, vou lá, encho o saco do Gui, ele me explica tudo o que está acontecendo, gravo e vou embora.

Rafael Valente – MDA

Vocês acabam gravando juntos, como o Qifrey e Coco? Ou são separados os horários?

Lucas Gama

Não. Hoje em dia, todos separados.

Helena Violante

Mas tem uma coisa muito legal dos bastidores, que foi quando eu e o Lucas a gente se conheceu pessoalmente. Foi muito legal.

Guilherme Marques

Tem registro, procura aí no Instagram deles.

Helena Violante

A gente combinou de se encontrar e aí eu tinha terminado minha escala, ia ser a dele. Aí a gente ficou muito feliz encontrando junto. A gente gravou um vídeo, inclusive o Guilherme apareceu nele. Inclusive, também, teve um outro dia que eu encontrei, por acaso, o Gabriel, o dublador do Orúgio. E a gente também gravou um vídeo junto. Então, acho que foi uma das coisas que mais me marcou.

Lucas Gama

Viu só é que eu sou careta. 

Guilherme Marques

Cara, tem algumas curiosidades, mas acho que num geral de animes e tudo, é que às vezes a gente acaba… Vocês nem imaginam. A maravilhosa Laís Martins faz a lagarta aqui, porque precisa fazer. Isso não vem no material original. Não vem na trilha de músicas e efeitos do material original. O Dragão, dos episódios lá do 3 e 4, se não me engano, precisou ser feito. Eu que fiz. Aquele Dragão foi eu que fui lá fazer. Porque vem o mixador e fala assim, ó, temos um problema. O Dragão aqui precisa gravar. Então às vezes tem. Tem uns bichinhos, tem umas coisas que precisa de gente pra gravar. Gatos, cachorros. Porque tem alguém lá que faz e é até creditado, aparece, é divulgado. Então o cachorro lá do anime, esse cachorro é uma dubladora lá. É um dublador lá, é alguém importante que vai lá só pra fazer isso. E aqui a gente precisa reproduzir também.

Lucas Gama

Se precisar de galinha, a Carol Valência é muito boa. A Carol Valencia faz ótima galinha.

Rafael Valente – MDA

Se sentiria a diferença se você usasse o áudio original pro áudio dublado?

Guilherme Marques

Dá, dá diferença. Dá diferença de mixagem, dá diferença de captação, dá diferença de acabamento.Isso dá diferença.

Rafael Valente – MDA

E aí, imagina que pra você fazer um trabalho bem feito você tenha que fazer tudo de uma fonte só, né?

Guilherme Marques

É. E aí uma orientação que acaba vindo muitas vezes do cliente é não use o material original. Então não roube do original. Se precisar, só grava. Se não tem ali na trilha que vem separada isso, só músicas e efeitos para você mixar depois com as vozes, a gente precisa gravar. E às vezes essa trilha vem depois do momento que a gente já gravou tudo. Aí a gente vai descobrindo essas coisas só ali na hora de mixar.

Rafael Valente – MDA

Muito obrigado pela participação de vocês. Muito obrigado por me receberem. Espero que vocês tenham gostado do papo.